Biografia:

Damionor Ribeiro de Mendonça, conhecido na capoeira como Mestre Mendonça, foi uma das figuras mais influentes na institucionalização e regulamentação da capoeira no Brasil. Embora não seja tão amplamente lembrado pelas rodas de rua ou pelo espetáculo, seu impacto foi decisivo na transformação da capoeira num esporte reconhecido com estruturas formais, regras e graduações.

Nascido em 16 de julho de 1931 em Aracaju, capital do estado de Sergipe, Mendonça era filho de um general do exército, um passado que mais tarde influenciaria sua abordagem disciplinada e organizacional da capoeira. Na década de 1950, mudou-se para o Rio de Janeiro, estabelecendo-se no bairro do Grajaú, na Zona Norte da cidade.

A entrada de Mendonça na capoeira foi relativamente tardia em relação a muitos mestres de sua geração. Em 1964, enquanto trabalhava no serviço de segurança do Banco do Brasil, ele e colegas buscavam uma arte de luta que pudesse aprimorar suas habilidades profissionais. A capoeira, com sua combinação de combate, agilidade e estratégia, apareceu como a escolha ideal. Mendonça escolheu treinar com Mestre Artur Emídio, um dos principais mestres de capoeira do Rio na época. Segundo Mestre Bebeto, ele também treinou com o Grupo Bonfim, que estava expandindo suas atividades nos subúrbios da zona norte do Rio.

Na década de 1970, Mestre Mendonça já dava suas próprias aulas, notadamente no Clube Satélite do Banco do Brasil, demonstrando como a capoeira estava entrando em espaços institucionais e corporativos além das academias tradicionais e das ruas.

Mais do que um praticante, Mestre Mendonça rapidamente se tornou um ator político e organizacional dentro da capoeira. A partir de 1967, ele se dedicou à criação de um quadro regulamentar para a capoeira, que ele concebeu firmemente como um desporto. Seus esforços culminaram durante o Segundo Simpósio de Capoeira (1969), onde representantes de diferentes estados brasileiros foram selecionados para elaborar uma proposta de regulamentação nacional. Mendonça foi escolhido para representar o Rio de Janeiro (então estado da Guanabara).

Ele assumiu a responsabilidade de redigir o que viria a ser o "Regulamento Técnico da Capoeira", adotado oficialmente em 1973 pelas autoridades desportivas ligadas à Confederação Brasileira de Pugilismo. Este documento estabeleceu regras padronizadas para competições e práticas e tornou-se a pedra angular da capoeira desportiva.

Uma das contribuições mais duradouras de Mestre Mendonça foi a criação do sistema oficial de graduação. Inspirado nas cores da bandeira brasileira, ele introduziu uma hierarquia usando verde, amarelo, azul e branco, culminando na faixa branca para a categoria master. Numa época em que não existia uma indumentária padronizada, ele também ajudou a definir o uniforme branco como oficial, inspirando-se na roupa branca festiva tradicionalmente usada pelos antigos capoeiras da Bahia.

Mestre Mendonça continuou muito ativo na Comissão de Mestres da Federação de Pugilismo do Estado do Rio de Janeiro e mais tarde na Confederação Brasileira de Capoeira, continuando seu trabalho até a velhice. Ao lado do trabalho administrativo, foi também um estudioso da história e da cultura da capoeira, compondo músicas que ainda hoje são cantadas nas rodas.

Por sua incansável dedicação ao reconhecimento desportivo e institucional da capoeira, recebeu várias homenagens, entre elas o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, concedido pela Câmara Municipal.

Mestre Mendonça faleceu em 2017, deixando um legado complexo e influente. Ele é lembrado como o arquiteto dos regulamentos técnicos da capoeira, o criador do seu sistema oficial de graduação, e uma das figuras-chave responsáveis pela aceitação da capoeira dentro das estruturas desportivas e institucionais formais do Brasil.