- Viveu em: Rio de Janeiro, Brasil
- Data de nascimento: 01-Jan-1925
- Data de falecimento: 01-Jan-1950
- Aprendeu com:
- Estilo de Capoeira: Angola
Biografia:
Joaquim Felix, conhecido nas ruas do Rio como Quinzinho, é uma dessas figuras sombrias que se situa na encruzilhada da malandragem, da violência das ruas e da velha capoeira carioca das gangues - umtipo de capoeirista cujo nome sobrevive não através de academias formais, mas através da memória da prisão, do testemunho das ruas e da história oral daqueles que viveram aquele mundo.
Quinzinho vivia rápido e perigosamente. As referências contemporâneas descrevem-no como um jovem fora da lei e chefe de bando, já com mortes na consciência e tendo cumprido pena numa colónia penal. Décadas depois, seu nome ainda aparece ao lado de "bandidos lendários" na tradição carcerária brasileira - mencionado, por exemplo, em Estação Carandiru (1999), de Drauzio Varella, onde Quinzinho é lembrado como parte da mitologia criminal transmitida dentro do sistema.
Mas Quinzinho não era apenas temido - ele também era reconhecido como capoeirista, e nesse papel ele se tornou o primeiro professor de Mestre Leopoldina. Por volta de 1950-1951, quando Leopoldina tinha cerca de 18 anos e fome de aprender, ele encontrou Quinzinho na órbita áspera da Central do Brasil, nas linhas de trem e na rede de ruas dos "malandros" do Rio. O primeiro contacto foi tenso e quase trágico: Leopoldina descreve ter sido humilhado (Quinzinho roubou-lhe o chapéu, provocando-o) e ter ficado tão furioso que foi buscar uma faca de oito polegadas escondida debaixo da linha do comboio, com a intenção de dar aquilo a que ele chamava uma "facada conversada"-uma"facada conversada", feita cara a cara para preservar o estatuto na lógica da cadeia e da honra de Malandro. Um jornaleiro chamado Rosa Branca acalmou-o, e a violência foi evitada.
Mais tarde, quando Leopoldina voltou a encontrar Quinzinho numa paragem de autocarro - rodeada por outras figuras da rua - o comportamento de Quinzinho revelou algo essencial sobre a sua autoridade. Ao ver que Leopoldina era respeitada entre a malandragem, Quinzinho aproximou-se para evitar conflitos, mas mesmo assim revistou-o à procura de armas ("deu uma geral"), afirmando o controlo da forma como um líder de rua o faria. É uma cena pequena, mas mostra o tipo de homem que Quinzinho era: perigoso, calculista e sempre operando com instintos de sobrevivência.
Nas semanas seguintes, Leopoldina criou coragem para perguntar o que ele realmente queria: aprender capoeira. A resposta de Quinzinho foi direta:"Vai para o Morro da Favela amanhã". Para Leopoldina, esse convite foi como ganhar uma fortuna. O treino, no entanto, foi brutal, como a capoeira de rua costuma ser: Leopoldina voltou para casa arrasado, incapaz de sair da cama, com medo que Quinzinho o rejeitasse se ele faltasse à próxima sessão. Mas Quinzinho surpreendeu-o com uma espécie de aceitação dura -"Está tudo bem... está tudo bem" - econtinuou a ensinar.
A capoeira de Quinzinho era tiririca: uma forma de capoeira sem berimbau, praticada entre as gangues de rua e malandros do Rio, descendente das antigas tradições violentas das maltas de 1800. Ele não ensinava através de um método estruturado de academia como as seqüências de Bimba na Bahia ou a abordagem de Sinhozinho no Rio. Em vez disso, como Leopoldina descreve, Quinzinho ensinava brincando com o aprendiz e corrigindo no momento-"Faça assim... faça assim".
E aí vem o paradoxo que torna Quinzinho historicamente fascinante: mesmo sendo um fora da lei, ele conseguia encarnar uma rigorosa "ética de mestre". Em um episódio poderoso, um homem chamado Juvenil tentou dominar Leopoldina em um jogo, dando um chute perigoso que raspou sua cabeça. Quinzinho - sentado com uma pistola na cintura - levantou-se e apontou a arma para o rosto de Juvenil e o advertiu para não fazer isso, pois deixaria o iniciante com medo e incapaz de aprender. Numa época em que os iniciantes muitas vezes aprendiam apanhando "para ficarem espertos", o fato de Quinzinho impor essa linha é impressionante. Sugere que, dentro do mundo violento das ruas, ele ainda mantinha um código: a capoeira não era só para machucar-era também para formar malícia, coragem e prontidão.
O fim de Quinzinho se encaixa no padrão da sua vida. Segundo o relato de vocês, ele foi preso novamente e depois assassinado na prisão da Ilha Grande, morto por um chefe de segurança conhecido como Chicão. Depois disso, Leopoldina sumiu por um tempo por medo de represálias de criminosos rivais, para depois voltar à capoeira através de Mestre Artur Emídio e do estilo baiano do berimbau.
Na história da capoeira, Quinzinho representa algo mais antigo do que a academia: a capoeira dos malandros, nascida na rua, moldada por códigos de honra, sobrevivência e a constante ameaça de violência - mas ainda capaz de produzir disciplina, orientação e profunda "inteligência de capoeira". Ele pode não ter deixado uma linhagem formal como os mestres posteriores deixaram, mas através do testemunho de Leopoldina, Quinzinho permanece lembrado como uma figura rara e complexa: o marginal que também era mestre.