Biografia:

Mestre Paulo Gomes da Cruz, amplamente conhecido como Mestre Paulo Gomes (também lembrado pelo apelido Galo Cego), foi um dos mestres de capoeira mais influentes na expansão e institucionalização da capoeira no Rio de Janeiro, Baixada Fluminense e São Paulo durante a segunda metade do século XX.

Nascido em 25 de janeiro de 1941 em Itabuna, no sul da Bahia, Paulo Gomes fez parte da grande migração baiana para o Rio de Janeiro, um movimento impulsionado por dificuldades económicas e pela busca de oportunidades. Como muitos capoeiristas de sua geração, sua trajetória na capoeira se desenvolveu longe de sua terra natal, no intenso ambiente urbano do subúrbio carioca.

Em 1962, Paulo Gomes começou a treinar na academia do Mestre Artur Emídio, em Bonsucesso, na Zona Norte do Rio. Lá, ele treinou ao lado de figuras que mais tarde se tornariam nomes centrais na história da capoeira, como Mestre Leopoldina, Mestre Celso do Engenho da Rainha e Mestre Djalma Bandeira. Nesse ambiente - marcado por ritmos rápidos de berimbau, sequências estruturadas e forte ênfase na eficácia - Paulo Gomes amadureceu como capoeirista e ganhou reconhecimento como mestre.

Através de Artur Emídio, Paulo Gomes herdou uma linhagem enraizada na Bahia e forjada sob repressão: Artur Emídio, discípulo de Mestre Paizinho (Teodoro Ramos), que por sua vez havia aprendido com Mestre Neném. Essa genealogia situa Paulo Gomes em um dos mais importantes ramos históricos que ligam o interior da Bahia ao Rio de Janeiro e, mais tarde, a São Paulo.

Na década de 1960, Mestre Paulo Gomes mudou-se para a Baixada Fluminense, fixando-se em São João de Meriti, no bairro de Coelho da Rocha. Lá, começou a ensinar capoeira e a formar alunos que se tornariam mestres influentes. Entre seus discípulos mais notáveis estão Mestre Valdir Sales (1942-2019) e Mestre Josias da Silva, ambos fundaram academias respeitadas e ajudaram a consolidar a capoeira em toda a Baixada.

Um novo capítulo se abriu quando Paulo Gomes se mudou para São Paulo, onde mais uma vez desempenhou um papel fundamental. Criou o Centro de Capoeira Ilha de Maré e, em 1985, fundou a Associação Brasileira de Capoeira (ABRACAP), uma das mais importantes organizações nacionais dedicadas à capoeira. Nesse mesmo ano, foi assessor do então governador Mário Covas, contribuindo para a criação da Lei Estadual nº 4.649, que instituiu oficialmente o dia 3 de agosto como o Dia do Capoeirista no Estado de São Paulo.

Além de ensinar e organizar, Mestre Paulo Gomes estava profundamente comprometido com a documentação e preservação da história da capoeira. Em 1982, ele publicou o influente livro Capoeira - A Arte Marcial Brasileira, e mais tarde contribuiu musicalmente para projetos como o CD Roda de Capoeira da Ilha de Maré, reforçando a memória cultural e histórica da capoeira.

Tragicamente, a vida de Mestre Paulo Gomes foi interrompida em 1998, quando ele foi assassinado aos 57 anos de idade dentro de sua academia em São Paulo. As circunstâncias violentas de sua morte chocaram a comunidade capoeirística de todo o país. Seu velório, realizado na própria academia, tornou-se uma poderosa despedida coletiva, marcada por discursos, orações, berimbaus, cantos e uma última roda em sua homenagem, antes de seu enterro no Cemitério São Pedro, em São Paulo.

Hoje, Mestre Paulo Gomes é lembrado como um construtor de instituições, um transmissor de uma linhagem Rio-Bahia vital, e um mestre que ajudou a dar à capoeira reconhecimento legal, estrutura organizacional, e voz histórica. Através de seus alunos, escritos, gravações, e as comunidades que ele fundou, seu legado permanece firmemente incorporado na história da capoeira brasileira.